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  • 3 Agosto 2017

    „No verão de 1944 as tropas nazi e soviética preparavam-se para uma batalha terrível e sangrenta aqui em Varsóvia. No meio desse inferno na terra, os polacos ergueram para defender a sua Pátria”.

    Foi com essas palavras que o Presidente Donald Trump, durante o seu discurso em frente do Monumento da Insurreição de Varsóvia na Praça Krasinski, chamou atenção do mundo para um acontecimento, que durante demasiado tempo tem sido relegado para a margem da história do mundo ocidental.

     

    Durante o verão quente de 1944 o Terceiro Reich, que espalhava destruição na Europa inteira, estava em recuo.

     

    No oeste, as forças militares americanas, britânicas e canadianas, apoiadas pelos pilotos e marinheiros polacos e pelas outras forças aliadas, asseguraram uma cabeça-de-ponte na Normandia e começaram a luta pela libertação da França.

     

    No sul, as tropas aliadas libertaram a Roma, depois da Batalha de Monte Cassino, que foi capturado pelos soldados do II Corpo Polaco.

     

    No leste, o Exército Vermelho atravessou a fronteira da Polónia anterior à guerra, empurrando na direção do Berlim as tropas alemãs dizimadas.

     

    Naquele momento, a Polónia – o primeiro país que se opôs à Alemanhã nazi em 1939 – há quase cinco anos sofria sobre a ocupação brutal e terror. Além disso, passou por algo que nenhuma das nações europeias alguma vez tinha enfrentado: a ocupação dupla da Alemanha nazi e da Rússia soviética.

     

    Nos anos 1939-41 a Rússia soviética e a Alemanha nazi iniciaram ações conjuntas, definidas no Pacto Molotov-Ribbentrop e cooperaram na invasão e na ocupação da Polónia, o facto que atualmente é voluntariamente omitido pelos representantes das autoridades russas.

     

    Essa experiência constituiu uma lição importante para os líderes da Polónia e as suas elites militares, uma lição que o Ocidente também iria aprender muito em breve: o Exército Vermelho trouxe consigo um conjunto de regras e crenças incompatíveis com a civilização ocidental enraizada nos valores greco-romanos. Os polacos sabiam que apesar do regime nazista chegar ao fim, iria ser substituido com algo igualmente sinistro.

     

    Nessas circunstâncias, em 1944, o Estado Secreto Polaco decidiu sobre o início da insurreição, num esforço determinado embora arriscado. O Armia Krajowa (Exército Polaco Clandestino) era uma das maiores organizações clandestinas na Europa, leal ao governo polaco no exílio em Londres. Quando o exército alemão estava a recuar da Varsóvia e, por sua vez, os primeiros tanques soviéticos chegavam aos arredores da capital, o Estado Secreto Polaco e Armia Krajowa, ligeiramente armados mas muito determinados, ergueram para libertar a Varsóvia.

     

    O que segiu foi uma luta heróica pela liberdade contra todas as probabilidades.

     

    Durante os próximos 63 dias os insurgentes lutavam alemães, libertando partes da capital polaca. No entanto, o seu esforço revelou-se ser em vão.

     

    Como disse o Presidente Trump: „Na outra margem de Vístula o exército soviético parou e esperou. Os soviéticos observavam como os nazis destruiam impiedosamente a cidade, assassinando violentamente homens, mulheres e crianças. Tentavam destruir esta nação para sempre através da destruição da sua vontade de sobreviver.”

     

    A estratégia dos polacos visava assumir rapidamente o controlo sobre a capital, na altura entre o recuo das tropas alemãs e o ataque russo. Deste modo as forças polacas iriam controlar a sua própria casa e, como se acreditava, impedir a ameaça soviética à soberania polaca.

     

    No entanto, a ofensiva soviética foi suspensa e Estaline não concordava para que os aviões americanos e britânicos aterrassem e abastecessem nos territórios polacos dominados pelos soviétivos, o que impossibilitou o fornecimento da devida ajuda aos combatentes em Varsóvia. Como consequência, os alemães conseguiram sem nenhum obstáculo, de uma forma metódica e brutal, suprimir a Insurreição de Varsóvia.

     

    Durante dias os alemães percorriam todas as ruas do bairro Wola em Varsóvia, a matar todos os homens, mulheres e crianças que encontravam. De 40 a 50 mil pessoas foram assassinadas numa semana durante massacre de Wola. De seguida começou a cerca da Cidade Velha, que foi bombardeada até quase todos os edifícios foram demolidos. Este tipo de ações continuou por 63 dias. Durante esse tempo a cidade tornou-se num mar de ruínas, e um quarto de milhão de insurgentes e civis polacos perderam as suas vidas.

     

    Qual foi o propósito disso tudo? Para quê o Armia Krajowa lutou?

     

    Lutou pela liberdade. Pelo futuro melhor, em que uma Polónia independente e orgulhosa iria renascer.

     

    O que é ainda mais importante, lutou em nome dos valores, em nome dos ideais superiores tais como pluralismo, liberdade e justiça. Valores que, como aprenderam os polacos com a experiência da guerra, podem ser salvos apenas por um Estado-nação forte e um exército forte. Os insurgentes sabiam que esses valores eram alheios à União Soviética – a mesma União Soviética que foi reponsável pela deportação de mais de 1 milhão de inocentes civis polacos aos gulags de Sibéria. A União Soviética responsável pela execução de vinte mil oficiais e prisioneiros de guerra só por causa do uniforme que usavam. A União Soviética que tentou forçar a passagem da revolução bolchevique para o território europeu em 1920, mas que foi impedido em Varsóvia.

     

    Os polacos sabiam que a civilização ocidental, e consequentemente o respeito para os valores, tradições e crenças do Ocidente, acabam na fronteira oriental da Polónia.

     

    Por isso hoje, no 73º aniversário da Insurreição de Varsóvia, paremos para lembrar os que defendiam a Polónia e os valores ocidentais. Entre eles Julian Kulski, um adolescente que lutou na Insurreição de Varsóvia, Zofia Korbonska, já falecida heróica operadora do rádio que informava o mundo sobre as atrocidades nazi, e Barbara Syska, que durante a Insurreição servia como mensageira e de uma forma corajosa passava entre as unidades para transmitir as ordens. Todas estas pessoas, que posteriormente residiam nos arredores de Washington, são um síbolo do carácter da nação polaca.

     

    Hoje os polacos homenageam os heróicos combatentes da Insurreição de Varsóvia, nem só a prestar a sua homenagem no dia 1 de agosto, mas também a trabalhar todos os dias para perservar os valores pelos quais os insurgentes lutaram. Polónia permanece fiel aos seus valores fundamentais, o que se manifesta através do cumprimento das obrigações comuns no âmbito da OTAN ou das atividades nos lugares do mundo onde a liberdade é ameaçada.

     

    Tal como em 1944, quando a Polónia resistiu à tirania, tal hoje em dia a Polónia se insurge contra a tirania do Estado Islâmico e ajuda outros países, tais como a Ucrânia, no seu protesto contra a tirania. Os polacos têm que se certificar que a memória sobre o ano 1944 permaneça viva e que não seja esquecido o que esse ano nos ensinou.

     

    Como disse o Presidente Trump: „a memória sobre os que morreram durante a Insurreição de Varsóvia lembra-nos que o Ocidente foi salvo graças à sangue dos patriotas; que cada geração tem que erguer e desempenhar o seu papel nessa defesa – e que vale a pena dedicar a nossa vida em defesa de cada pedaço da terra, cada centímetro da nossa civilização.”

     

    Que sejam sempre lembrados por nós.

     

     

     

    Piotr Wilczek foi nomeado o Embaixador da República da Polónia nos Estados Unidos da América e nas Bahamas em 2016. É autor reconhecido, tradutor das obras literárias e périto na área da literatura comparada. Autor e editor de mais de 20 livros. Antes da sua nomeação foi professor e diretor do programa dos estudos de doutoramento no Colégio “Artes Liberales” da Universidade de Varsóvia, e antes disso o diretor desse Colégio.

     

    Embaixador Piotr Wilczek

     

    Texto em inglês: https://poland.pl/tourism/history-poland/how-warsaw-uprising-challenged-and-changed-poland/

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